O prazer de transgredir

 In Momento de Reflexão

 

O tolo não se contenta em violar uma regra ética: pretende que a sua transgressão se converta numa regra nova.

Nicolás Gómez Dávila

 

Ninguém entra sozinho na transgressão. Solitária, só a santidade.

Otto Lara Resende

 

Na multidão de palavras não falta transgressão, mas o que modera os lábios é prudente.

Salomão

 

Se há uma coisa que fascina o ser humano é a possibilidade de transgredir as regras estabelecidas por um grupo social.  Vem do Latim transgredi, que significa ultrapassar limites, ir além do que foi determinado, violar; e de trans, que significa através, além.

O prazer em não acatar as regras gera no ser humano um sentimento de poder, que não se pode negar que seja um sentimento “torto”.  A grande maioria se esmera em seguir as determinações expostas por leis, convenções, cultura, seja que determinante for.

Há outros que se sentem realizados quando quebram padrões estabelecidos como normas para o bem-estar de uma sociedade. O prazer que aquele ser sente em quebrar tais normas está vinculado a sentimentos de frustração e horror à rotina.  Entretanto, o que se mostra como o mais interessante é que a quebra da lei, do padrão, do comportamento esperado, faz o transgressor ter um grande sentimento de frustração, de culpa. Ao mesmo tempo em que seu sentimento por ter cometido um delito de ordem social lhe faz mal, sente que precisa transgredir novamente porque, quem sabe, desta vez terá um real prazer no ato de ir contra o que foi estabelecido.  Ou seja, o transgressor é um contínuo insatisfeito com o mundo que o cerca.

É hábito dizer-se que devemos lutar para ter um mundo melhor. Mas o que significa esse melhor, para cada um?  É sensato pensar que este melhor esteja associado ao que recebemos e como vivenciamos o melhor que nossos pais e ancestrais descreveram.  O presidente, rei, imperador, ditador, seja lá a figura que representa estes ancestrais, exerce o papel de nos fazer lembrar que são eles a ditar o que é bom para nós.

O Brasil, como bem o sabemos, não começou muito bem.  Colônia para degredo,  sem qualquer interesse de Portugal,  que mudou rapidamente de opinião,  quando a  Corte foi obrigada a fugir, perseguida por Napoleão.  Totalmente analfabeta ou pouquíssimo letrada, a população se depara com uma realidade que muitos, sequer, conheciam.   E, se desconheço, se ninguém me explica e me impõe, não sou obrigada a seguir.  Começa aí o prazer da transgressão.  Já que me obrigam, não vou obedecer.  De jeito nenhum.

E o país se torna uma república. Paternalista, na sua essência. Se você detiver algum poder, terá prazer de soltar o famoso “Sabe com quem tá falando?”, como se esta frase o isentasse de seguir o que a Carta Magna determina. Seu interlocutor, obediente à visão paternalista, terá medo. E aí surge a corrupção.  Desde 1808, no Brasil. Para que haja um corruptor,  é necessário que exista o corrompido.  Ambos se equivalem.  Eu arriscaria uma opinião muito controversa: quem não se vê no lugar do corruptor, daquele que tem dinheiro e pode transgredir as leis? Tanto é assim, que todos os que ascendem à carreira de líderes do país, gastaram muito, fizeram muitos conchavos e se elegeram.

É comum que se veja, nas mídias sociais, o comportamento dos parlamentares nos demais países.  Não transgridem as leis:  ao contrário,  cumprem-nas e obrigam todos que as cumpram. E isto é feito porque todos foram criados no cumprimento das regras sociais.

O Direito surgiu em Roma, para que as leis fossem cumpridas, já que suas colônias estavam adquirindo o péssimo hábito de se insurgir. E nós conhecemos um dos grandes transgressores da lei estabelecida: Jesus.  Ele não deu a outra face.  Ele lutou pelo que acreditava e teve todo o sucesso que esperava.   Foi prudente em tudo o que disse e ensinou.  Transgredir não é para amadores, como se vê hoje.  Requer,  eu me atreveria a dizer, um grau de santidade, como Martin Luther King ou Mahatma Gandhi.

O transgressor amador vai buscar sua satisfação pessoal, assim como seu lucro.  O transgressor perfeito vai buscar o bem da coletividade.  E é precisamente aí que reside o erro dos transgressores atuais:  pouca cultura, falácia sem embasamento  e egoísmo exacerbado.  Jamais saberão o que é transgredir,  na realidade.

 

 

 

 

 

 

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